Falar com famílias sobre preocupações no desenvolvimento, comportamento ou bem-estar de uma criança nunca é simples. Mesmo para profissionais experientes, estas conversas exigem sensibilidade, preparação e clareza.
A comunicação cuidada é uma das bases de uma educação verdadeiramente humana. Por isso, reunimos este guia prático para apoiar educadores e escolas a conduzirem estas conversas com empatia, responsabilidade e foco no melhor interesse da criança.
Antes da conversa
Quando devo partilhar uma preocupação com a família?
Uma preocupação deve ser partilhada quando deixa de ser pontual e passa a revelar um padrão consistente.
Regra geral, é importante observar a criança durante algumas semanas, em diferentes momentos e contextos, antes de solicitar uma reunião formal.
Exceção importante:
Se existir qualquer risco para a segurança ou bem-estar da criança, a conversa deve acontecer de imediato.
Quanto tempo devo observar?
- Preocupações moderadas: 3 a 4 semanas de observação consistente
- Preocupações leves: pode ser suficiente um contacto informal inicial
- Situações urgentes: agir imediatamente
O mais importante é basear a conversa em factos observáveis, e não em perceções isoladas.

E se não tiver a certeza se a minha preocupação é válida?
Não precisa de ter todas as respostas.
Antes de falar com a família:
- Partilhe as observações com colegas ou coordenação
- Consulte referenciais de desenvolvimento adequados à idade
- Pergunte a si próprio: “Isto é consistente ao longo do tempo?”
Se a dúvida existe, já merece ser refletida em equipa.
Como convidar a família para a reunião?
Seja transparente, mas tranquilo. Evite mensagens alarmistas ou excessivamente vagas.
✔️ Exemplo adequado:
“Gostaria de marcar um momento para conversarmos sobre como a [criança] se tem sentido e algumas observações feitas em contexto de sala.”
❌ Evite:
“Precisamos de falar sobre o comportamento da [criança].”
A forma como o convite é feito influencia profundamente a abertura da família.
Durante a conversa
E se a família ficar emocionada?
As emoções fazem parte do processo.
O que ajuda:
- Fazer pausas e respeitar o silêncio
- Validar: “Percebo que isto seja difícil de ouvir.”
- Reafirmar o vínculo: “Sabemos o quanto se preocupa com o seu filho.”
Evite minimizar emoções ou avançar demasiado depressa para soluções.
E se a reação for defensiva ou de negação?
Mantenha uma postura calma e colaborativa:
- “O nosso objetivo é o mesmo: apoiar o desenvolvimento da criança.”
- “É comum que os comportamentos sejam diferentes em casa e na escola.”
Negação pode ser apenas uma fase de processamento.
Manter a relação aberta é mais importante do que convencer.
Posso sugerir um diagnóstico?
Não. Educadores não diagnosticam.
O papel da escola é:
- Descrever comportamentos observáveis
- Partilhar o que já foi tentado
- Sugerir avaliação por profissionais qualificados
O foco não é rotular, mas compreender melhor como apoiar a criança.

E se não souber responder a uma pergunta?
Dizer “Não sei, mas vou informar-me” é um ato de profissionalismo. Evite especulações ou respostas apressadas.
Temas sensíveis específicos
Como falar sobre atrasos no desenvolvimento?
Enfatize que:
- O desenvolvimento não é linear
- Cada criança tem o seu ritmo
- A intervenção precoce é altamente eficaz
Uma abordagem possível:
“A criança demonstra muitas competências fortes, e estamos a notar que precisa de apoio adicional nesta área específica. Quanto mais cedo compreendermos como ajudá-la, melhor.”
Nunca sugira culpa parental.
Como abordar comportamentos desafiantes?
Evite rótulos.
Enquadre como:
- Dificuldade de autorregulação
- Forma de comunicação
- Competência ainda em desenvolvimento
Inclua sempre:
- O que desencadeia o comportamento
- O que já foi tentado
- A confiança de que a criança pode evoluir com apoio
Depois da conversa
O que deve constar no follow-up?
- Agradecimento pela disponibilidade
- Resumo factual do que foi falado
- Próximos passos acordados
- Data de novo ponto de contacto
Evite descrições emocionais ou novas preocupações não discutidas presencialmente.
Com que frequência devo acompanhar?
- Fase inicial: contactos breves semanais ou quinzenais
- Após plano definido: atualizações a cada 2–4 semanas
- Sempre com equilíbrio entre desafios e progressos
As famílias precisam ouvir também as conquistas.
Comunicação interna e autocuidado
Quem deve ser informado?
✔️ Professores envolvidos
✔️ Coordenação/direção
✔️ Técnicos (com consentimento da família)
Nunca:
- Outros pais
- Profissionais sem ligação à criança

E se esta conversa me afetar emocionalmente?
É normal.
Sinais de alerta:
- Ansiedade antes das reuniões
- Evitar conversas necessárias
- Sentimento de culpa constante
Procurar apoio não é fraqueza — é cuidado profissional.
Nota final
Estas conversas não são fáceis. Mas evitá-las tem um custo maior para a criança.
Não é preciso ser perfeito. É preciso ser honesto, empático e comprometido com a parceria.
Na Growappy, acreditamos que quando a comunicação é clara, respeitosa e bem documentada, escolas e famílias tornam-se verdadeiros aliados no desenvolvimento da criança.
Educar é cuidar. Comunicar também.
