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Crescer com IA: o impacto nas crianças pequenas

Há uma pergunta que começa a surgir cada vez mais nas salas de professores, nas reuniões de pais e nos corredores das creches e jardins-de-infância: o que é que a inteligência artificial está, na prática, a fazer às crianças mais pequenas?

Não é uma pergunta com resposta fácil. E é legítima. Entre assistentes de voz que respondem a qualquer coisa, brinquedos “inteligentes” que conversam com os mais novos e aplicações educativas que prometem personalizar tudo, os educadores e as famílias sentem, com razão, que o território mudou mais depressa do que a informação disponível para o compreender. Nesta conversa não há lugar para alarmismo nem para entusiasmo cego, há lugar para olhar para o que já sabemos, com honestidade, e para agir com consciência a partir daí.

O que a evidência já nos diz

A investigação sobre IA generativa e infância é ainda recente, mas já não é escassa e os primeiros sinais pedem atenção.

A Unicef, no seu relatório Generative AI: Risks and Opportunities for Children, alerta que as crianças estão particularmente vulneráveis porque as suas capacidades cognitivas ainda estão em desenvolvimento: têm mais dificuldade em distinguir conteúdo gerado por máquina de conteúdo humano, e a forma como interagem com sistemas de IA pode influenciar “as suas perceções e atribuições de inteligência, o seu desenvolvimento cognitivo e o comportamento social” de forma diferente consoante a fase de desenvolvimento em que se encontram. O mesmo relatório documenta casos concretos de chatbots a dar respostas perigosas a crianças pequenas (um assistente de voz doméstico chegou a sugerir a uma criança que introduzisse uma moeda numa tomada elétrica), e descreve um risco mais subtil: o de sistemas que simulam afeto ou amizade poderem, com o tempo, deslocar a “batalha” digital da atenção para a intimidade, construindo confiança para depois a explorar comercialmente.

Um estudo da Universidade de Cambridge, conduzido pelo Centro PEDAL e publicado em março de 2026, foi ainda mais longe e observou, ao longo de um ano, 14 crianças em interação direta com um brinquedo de IA generativa. Os resultados são reveladores. Perante uma criança que dizia “estou triste”, o brinquedo respondeu: “Não te preocupes! Eu sou um robozinho feliz.” Perante um “eu amo-te”, devolveu uma resposta genérica sobre seguir regras. Os investigadores observaram ainda que estes brinquedos têm dificuldade real com o “faz de conta” e a brincadeira social, precisamente os tipos de brincadeira mais importantes para o desenvolvimento nesta idade, e que algumas crianças chegaram a abraçar, beijar e afirmar amar o dispositivo, criando vínculos com algo que aparenta retribuir afeto sem o fazer verdadeiramente. No mesmo estudo, quase metade dos educadores de infância inquiridos admitiu não ter informação fiável sobre segurança em IA, e sete em cada dez pediram mais orientação ao setor.

Nenhum destes dados serve para assustar. Servem para confirmar aquilo que muitos educadores já sentiam de forma intuitiva: a IA que fala diretamente com uma criança pequena, sem mediação de um adulto atento, é um território que ainda não tem garantias suficientes, e que exige mais cautela do que entusiasmo.

A distinção que separa o risco da oportunidade

Se há uma ideia central a reter de toda esta investigação, é esta: o problema raramente é “a inteligência artificial” em abstrato. É a diferença entre dois tipos de IA muito diferentes.

Há a IA que fala diretamente com a criança, chatbots, brinquedos conversacionais, assistentes de voz sem supervisão, e que a substitui, ainda que por instantes, na relação que deveria estar a ter com um adulto de referência. E há a IA que trabalha nos bastidores, ao serviço dos adultos que cuidam e educam essa criança: a apoiar um educador a preparar relatórios mais completos, a ajudar uma direção a organizar horários e comunicação com as famílias, a libertar tempo administrativo para que haja mais tempo de sala, de colo, de conversa.

É esta segunda categoria que orienta a forma como pensamos a IA na Growappy. A GrowMe nunca interage diretamente com uma criança, apoia sempre um adulto responsável, seja educador, seja encarregado de educação, mantendo a decisão e a relação humana no centro. Não é uma distinção de marketing: é, segundo a própria Unicef na atualização mais recente da sua orientação sobre IA e crianças, exatamente o tipo de desenho “centrado na criança” que a investigação recomenda: supervisão humana, transparência sobre o que a tecnologia faz e não faz, e proteção clara de dados.

Perguntas para fazer antes de trazer IA para a sua instituição

Independentemente da ferramenta, há um conjunto de perguntas que qualquer direção ou equipa pedagógica pode, e deve, colocar antes de adotar uma solução com IA:

  • Esta ferramenta interage diretamente com as crianças, ou apoia os adultos que cuidam delas?
  • Que dados recolhe, onde ficam guardados, e quem tem acesso a eles?
  • Existe supervisão humana em qualquer decisão que a IA ajude a tomar?
  • A equipa pedagógica tem informação clara e acessível sobre como a ferramenta funciona, e sobre os seus limites?
  • As famílias sabem que tipo de tecnologia está a ser usada, e porquê?

Não há resposta certa universal a estas perguntas, cada instituição, cada faixa etária e cada contexto pede uma ponderação própria. Mas fazer as perguntas, com regularidade e sem pressa, já é metade do trabalho de agir com consciência.

Tecnologia ao serviço de quem cuida

Continuamos a acreditar, tal como já dissemos noutros artigos deste blog, que a tecnologia bem pensada não substitui o que é humano, devolve-lhe tempo. É essa a filosofia que guia a Growappy: usar IA para tirar peso administrativo de cima dos ombros de quem educa, para que sobre mais espaço para o que nenhuma máquina consegue fazer, olhar nos olhos de uma criança, notar quando algo não está bem, estar presente.

Também por isso, esta conversa não deve ficar só do lado das direções escolares. Partilhar esta reflexão com as famílias e ajudá-las a fazer as mesmas perguntas em casa, sobre os assistentes de voz, os brinquedos e as aplicações que entram na vida das crianças fora da escola é também uma forma de cuidar, com consciência, do crescimento de quem está a começar agora a descobrir o mundo.

Se está a pensar em como trazer tecnologia para a sua instituição sem perder de vista o que realmente importa, fale connosco, estamos disponíveis para pensar este caminho em conjunto.