As crianças brincam cada vez menos — e quem trabalha em Educação de Infância reconhece esta realidade todos os dias. Vemos bebés que dominam o ecrã antes de dominarem o próprio corpo, crianças que identificam logótipos com facilidade, mas hesitam quando lhes são oferecidos materiais abertos e tempo para imaginar.
Vemos também famílias orgulhosas de aprendizagens cada vez mais precoces, mas inquietas quando a roupa regressa suja depois de uma manhã de brincadeira no exterior. Sinais claros de uma infância cada vez mais orientada para resultados e menos para a experiência.
Perante este cenário, educadores em Portugal e em todo o mundo colocam as mesmas questões: quando foi que o brincar passou a ser secundário? E, acima de tudo, como o podemos devolver ao centro da infância?
Este artigo é um convite — feito com humor, esperança e sustentado na investigação — para recolocar o brincar onde sempre pertenceu: no coração da aprendizagem e do desenvolvimento infantil..
A infância mudou (e nem sempre para melhor)
Houve um tempo em que a infância era simples.
As crianças iam para a rua, inventavam jogos, recolhiam “tesouros” improváveis, voltavam para casa com histórias exageradas e joelhos esfolados — dos bons.
Hoje, muitas crianças são acompanhadas por:
- adultos permanentemente atentos
- dispositivos de localização
- relógios inteligentes
- câmaras na sala
- aplicações que registam o que comeram e quanto dormiram
Troca-se liberdade por segurança.
Tédio por ecrãs.
Exploração por atividades estruturadas.
Em Portugal, como noutros países, juntam-se ainda:
- agendas familiares sobrecarregadas
- receio do risco
- pressão para “preparar para a escola” cada vez mais cedo
O resultado é comum a muitos contextos:
- menos tempo de brincar livre
- menos contacto com a natureza
- mais tempo sentado
- mais estímulos dirigidos
- menos espaço para imaginar
E isto tem consequências.
Porque brincar não é entretenimento.
É desenvolvimento.
É linguagem, pensamento, emoção, relação, corpo, ciência, matemática e criatividade — tudo ao mesmo tempo.
Quando o brincar desaparece, o desenvolvimento desequilibra-se.

Porque é que o brincar continua a ser tão mal compreendido?
Explicar o brincar a adultos é, curiosamente, uma das tarefas mais difíceis da Educação de Infância.
Dizemos:
“As crianças aprendem através do brincar.”
E a resposta costuma ser:
“Sim, claro… mas quando é que começam a aprender a sério?”
Em muitos contextos, o brincar é visto como:
- um intervalo
- algo “giro”, mas dispensável
- menos importante do que fichas
- desorganizado
- difícil de justificar
Enquanto isso, a neurociência é clara:
- o brincar constrói o cérebro
- o jogo simbólico desenvolve linguagem e pensamento abstrato
- o brincar social desenvolve competências emocionais
- o brincar com risco fortalece funções executivas
- o brincar ao ar livre integra corpo e sentidos
Apesar disso, a pressão académica chega cada vez mais cedo:
- fichas em idade pré-escolar
- treino de competências formais antes do tempo
- foco excessivo em resultados visíveis
Nenhuma criança de 4 anos desejou ter começado fichas mais cedo. Mas muitos adultos sentem essa ansiedade.
E os educadores ficam no meio — a traduzir, explicar, defender.
Brincar é o verdadeiro trabalho da infância
Uma ficha ensina uma resposta certa.
O brincar ensina a pensar.
Uma ficha termina quando se preenche a página.
O brincar termina quando a imaginação decide.
Uma ficha testa memória.
O brincar constrói inteligência.
No brincar, as crianças aprendem:
- a negociar
- a resolver conflitos
- a lidar com frustração
- a cooperar
- a persistir
- a criar
- a regular emoções
- a pensar de forma flexível
Nada disto se ensina com fichas.

Pais cansados, agendas cheias e a pressão de “estimular”
As famílias de hoje vivem rodeadas de conselhos contraditórios:
- “estimule cedo”
- “não dê ecrãs”
- “mas use apps educativas”
- “deixe brincar livremente”
- “mas esteja sempre atento”
Não é falta de cuidado — é excesso de informação.
Perante o cansaço, muitos pais escolhem o que parece mais seguro ou mais produtivo: atividades estruturadas ou tecnologia.
É compreensível.
Mas é importante lembrar: As crianças que brincam livremente estão mais preparadas para a vida.
O brincar desenvolve competências que nenhum programa “extra” consegue substituir.
Educadores: os verdadeiros defensores do brincar
Na prática, os educadores tornam-se:
- mediadores
- explicadores
- defensores
- tradutores de ciência
- e, muitas vezes, contadores de histórias
São eles que dizem, com calma:
- “Sim, hoje brincaram — e aprenderam muito.”
- “Não, ler mais cedo não garante sucesso futuro.”
- “Esta brincadeira desenvolve matemática, linguagem e autonomia.”
Em Portugal, tal como noutros países, os educadores são muitas vezes a última linha de defesa da infância.
E precisam de apoio — institucional, familiar e social.
O poder dos materiais abertos (loose parts)
Paus, pedras, tecidos, caixas, tampas, cordas.
Materiais simples.
Possibilidades infinitas.
Os materiais abertos permitem:
- criatividade
- colaboração
- pensamento matemático
- linguagem
- resolução de problemas
Um objeto sem função definida convida a imaginar.
E imaginar é aprender.
Não é preciso um orçamento elevado.
É preciso intenção pedagógica.
Brincar ao ar livre e o valor do risco
Brincar com algum risco (adequado e acompanhado) ensina:
- autocontrolo
- avaliação de perigo
- confiança
- consciência corporal
Evitar todo o risco não protege — fragiliza.
Crianças que nunca testam limites pequenos tendem a não saber lidar com limites maiores no futuro.

Ecrãs e brincar: não é um “ou”, é um equilíbrio
A tecnologia faz parte da vida.
O problema não é o ecrã — é quando ele substitui:
- o corpo
- o outro
- a exploração
- o tédio criativo
Os ecrãs podem complementar.
O brincar é a base.
O que acontece quando protegemos o brincar?
Crianças:
- mais criativas
- mais resilientes
- com melhores competências sociais
- com bases sólidas para aprendizagens futuras
- emocionalmente mais seguras
Brincar não prepara apenas para a escola. Prepara para a vida.
Uma nota final
A infância não é uma corrida.
É um percurso — e o brincar é o caminho.
Proteger o brincar é um ato pedagógico e, nos dias de hoje, também um ato de coragem. Coragem para confiar nos tempos da infância, para valorizar a exploração, a imaginação e a aprendizagem que acontece de forma natural, significativa e profunda.
Na Growappy, acreditamos que a tecnologia pode — e deve — estar ao serviço do brincar. Através da inteligência artificial da Growappy, os educadores podem aceder a ideias de atividades pedagógicas, inspiradas no desenvolvimento infantil, adaptadas às idades, aos interesses das crianças e ao contexto de cada escola. Menos tempo em planeamento repetitivo, mais tempo para observar, acompanhar e brincar.
Ao apoiar escolas e educadores com uma aplicação de educação pensada para a realidade da Educação de Infância, a Growappy ajuda a transformar o brincar em aprendizagem visível, intencional e partilhada com as famílias — sem nunca o descaracterizar.
Porque brincar é coisa séria. E educar com sentido começa por respeitar a infância.
